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Professora Florence Dravet

Projetos

O feminino da tradição afro-brasileira à cultura brasileira - estudo da figura da pombagira, suas imagens e imaginários mediáticos (2015-2017)

Sobre o projeto

Em tempos de democratização de um mundo dito globalizado, chamam atenção os dados sobre a falta de igualdade entre homens e mulheres em todas as sociedades[1]. A presente proposta de pesquisa, porém,não visa denunciar nenhum tipo de desigualdade no tratamento às mulheres, e sim apreender o modo de comunicação do feminino–isto é, não só das mulheres, mas do princípio feminino presente em diversas manifestações ritualísticas e na vida cotidiana de homens e mulheres em comunidades de terreiro – no âmbito da tradição afro-brasileira e seu reflexo no imaginário popular do Brasil. Isso porque, no contexto cultural denominado ‘afrobrasileiro’, determinado por parâmetros culturais ao mesmo tempo híbridos e plurais(CANCLINI, 1997), acreditamos que concepções da realidade e das relações sociais que fujam ao padrão dominante existem no Brasil; concepções estas dotadas de um forte potencial de penetração e contaminação cultural que atribuímos ao poder de resistência das culturas ditas ‘das minorias’,‘locais’, ‘subalternas’ ou ainda ‘clandestinas’ (PAIVA, 2005; CASTELLS, 2008; SANTOS, 2005; MORIN, 1962) e que geram modos de comunicação próprios. O famoso processo de antropofagia cultural, cunhado pelos modernistas brasileiros, ou seja a ingestão, digestão, assimilação e defecação de elementos culturais vindos de fora parece-nos aqui pertinente e válido não só para os elementos das culturas do mundo dominante, mas também no caso da transformação dos elementos culturais de todas as outras partes do mundo que tiveram algum contato com o Brasil, predominantemente em nosso caso, elementos africanos e indígenas.

 

Destacamos aqui, baseando-nos em estudos anteriores (DRAVET, 2010), o poder de resistência e penetração no Brasil de um sistema de comunicação oral, que qualificamos de mítico, mágico e poético como forma de preservação dos saberes tradicionais de culturas historicamente oprimidas como a africana e a indígena, mas também a cultura dita popular.O ambiente do terreiro e suas adjacências na sociedade  (adjacência da casa, da rua, do bairro ou dos locais de realização de trabalhos tais como encruzilhadas, matas e parques, quintais de casas, etc.) são lugares paradigmáticos desses modos de comunicação e funcionam como uma espécie de foco central de onde partem narrativas, cantos, orações, danças, ditados e expressões, comportamentos, gestos, modos de vestir, etc. que se disseminam naquilo que chamamos de cultura popular e ali se misturam com outras práticas (música, teatro, dança, linguagem, crenças, etc).

 

No Brasil, há pouca literatura sobre as pombagiras; no entanto, uma pesquisa de campo junto a pessoas não adeptas revela que a figura é muito presente no imaginário coletivo. Não há quem nunca tenha ouvido falar nela e quem não saiba alguma coisa a seu respeito. Geralmente, a menção à pombagira suscita reações de espanto nas pessoas, que podem se expressar através do riso e do deboche ou ao contrário de respostas monossilábicas ou do silêncio incomodado. O nome é imediatamente associado à imagem de uma prostituta, uma mulher de vida livre, sedutora e perigosa. A rigor, toda mulher tem uma moça , alguns homens femininos também a têm. Ela é uma espécie de companheira que garante a feminilidade.

A pombagira atua nas regiões da vida social onde residem os maiores tabus: o amor e a sexualidade. O que é um tabu senão algo que se oculta? Talvez seja possível afirmar que os clichês simplificadores que fazem da pombagira uma figura negativa associada à prostituta, à mulher histérica e à bruxa perigosa são as máscaras sob as quais o feminino ama ocultar-se para melhor preservar o seu poder criativo, intuitivo, amoroso? Se ela gosta de rir e de jogar, faz pouco caso das civilidades e prefere a liberdade, se ela é movimento e ação, não surpreende que a pombagira jogue e ria com aquilo que mais desestabiliza o homem: sua sexualidade; e com aquilo que talvez seja o maior desafio ao mesmo tempo espiritual e material do homem: o amor. Mas tem mais, o tabu que oculta a realidade nos parece ter sua origem também em outro lugar do social: na rejeição do abjeto. Em Pouvoirs de L’horreur – Essai sur l’Abjection (1980), Kristeva diz que não nos livramos jamais totalmente da sujeira. Ela sempre volta mais cedo ou mais tarde como em um ciclo em movimento que vai da rejeição e exclusão no domínio do oculto, passando por diversas formas de resistência e sobrevivência, voltando inevitavelmente, dotada agora de uma força vital recrudescente. Isso se verifica para os dejetos naturais, que se recompõem como húmus ao solo, se verifica com os dejetos industriais de que buscamos nos desfazer, e se estende para a sujeira social: as prostitutas fazem parte daquilo que Julia Kristeva chama de lixo social.

Tal percepção nos conduz a querer relacionar nesta pesquisa as produções imaginárias transcendentais e sociais dentro do terreiro àquelas que se formam fora desse ambiente e que se encontrarão melhor representadas nos discursos midiáticos. Faremos, para tanto, um levantamento de como a figura da pombagira é representada na produção ficcional e midiática brasileira e tentaremos interpretar as condições da transformação da figura da pombagira, desde sua função como entidade sagrada até sua função dessacralizada de prostituta ou ‘companheira das prostitutas’.

Sobre o projeto

Em tempos de democratização de um mundo dito globalizado, chamam atenção os dados sobre a falta de igualdade entre homens e mulheres em todas as sociedades[1]. A presente proposta de pesquisa, porém,não visa denunciar nenhum tipo de desigualdade no tratamento às mulheres, e sim apreender o modo de comunicação do feminino–isto é, não só das mulheres, mas do princípio feminino presente em diversas manifestações ritualísticas e na vida cotidiana de homens e mulheres em comunidades de terreiro – no âmbito da tradição afro-brasileira e seu reflexo no imaginário popular do Brasil. Isso porque, no contexto cultural denominado ‘afrobrasileiro’, determinado por parâmetros culturais ao mesmo tempo híbridos e plurais(CANCLINI, 1997), acreditamos que concepções da realidade e das relações sociais que fujam ao padrão dominante existem no Brasil; concepções estas dotadas de um forte potencial de penetração e contaminação cultural que atribuímos ao poder de resistência das culturas ditas ‘das minorias’,‘locais’, ‘subalternas’ ou ainda ‘clandestinas’ (PAIVA, 2005; CASTELLS, 2008; SANTOS, 2005; MORIN, 1962) e que geram modos de comunicação próprios. O famoso processo de antropofagia cultural, cunhado pelos modernistas brasileiros, ou seja a ingestão, digestão, assimilação e defecação de elementos culturais vindos de fora parece-nos aqui pertinente e válido não só para os elementos das culturas do mundo dominante, mas também no caso da transformação dos elementos culturais de todas as outras partes do mundo que tiveram algum contato com o Brasil, predominantemente em nosso caso, elementos africanos e indígenas.

Destacamos aqui, baseando-nos em estudos anteriores (DRAVET, 2010), o poder de resistência e penetração no Brasil de um sistema de comunicação oral, que qualificamos de mítico, mágico e poético como forma de preservação dos saberes tradicionais de culturas historicamente oprimidas como a africana e a indígena, mas também a cultura dita popular.O ambiente do terreiro e suas adjacências na sociedade  (adjacência da casa, da rua, do bairro ou dos locais de realização de trabalhos tais como encruzilhadas, matas e parques, quintais de casas, etc.) são lugares paradigmáticos desses modos de comunicação e funcionam como uma espécie de foco central de onde partem narrativas, cantos, orações, danças, ditados e expressões, comportamentos, gestos, modos de vestir, etc. que se disseminam naquilo que chamamos de cultura popular e ali se misturam com outras práticas (música, teatro, dança, linguagem, crenças, etc).

 

No Brasil, há pouca literatura sobre as pombagiras; no entanto, uma pesquisa de campo junto a pessoas não adeptas revela que a figura é muito presente no imaginário coletivo. Não há quem nunca tenha ouvido falar nela e quem não saiba alguma coisa a seu respeito. Geralmente, a menção à pombagira suscita reações de espanto nas pessoas, que podem se expressar através do riso e do deboche ou ao contrário de respostas monossilábicas ou do silêncio incomodado. O nome é imediatamente associado à imagem de uma prostituta, uma mulher de vida livre, sedutora e perigosa. A rigor, toda mulher tem uma moça , alguns homens femininos também a têm. Ela é uma espécie de companheira que garante a feminilidade.

A pombagira atua nas regiões da vida social onde residem os maiores tabus: o amor e a sexualidade. O que é um tabu senão algo que se oculta? Talvez seja possível afirmar que os clichês simplificadores que fazem da pombagira uma figura negativa associada à prostituta, à mulher histérica e à bruxa perigosa são as máscaras sob as quais o feminino ama ocultar-se para melhor preservar o seu poder criativo, intuitivo, amoroso? Se ela gosta de rir e de jogar, faz pouco caso das civilidades e prefere a liberdade, se ela é movimento e ação, não surpreende que a pombagira jogue e ria com aquilo que mais desestabiliza o homem: sua sexualidade; e com aquilo que talvez seja o maior desafio ao mesmo tempo espiritual e material do homem: o amor. Mas tem mais, o tabu que oculta a realidade nos parece ter sua origem também em outro lugar do social: na rejeição do abjeto. Em Pouvoirs de L’horreur – Essai sur l’Abjection (1980), Kristeva diz que não nos livramos jamais totalmente da sujeira. Ela sempre volta mais cedo ou mais tarde como em um ciclo em movimento que vai da rejeição e exclusão no domínio do oculto, passando por diversas formas de resistência e sobrevivência, voltando inevitavelmente, dotada agora de uma força vital recrudescente. Isso se verifica para os dejetos naturais, que se recompõem como húmus ao solo, se verifica com os dejetos industriais de que buscamos nos desfazer, e se estende para a sujeira social: as prostitutas fazem parte daquilo que Julia Kristeva chama de lixo social.

Tal percepção nos conduz a querer relacionar nesta pesquisa as produções imaginárias transcendentais e sociais dentro do terreiro àquelas que se formam fora desse ambiente e que se encontrarão melhor representadas nos discursos midiáticos. Faremos, para tanto, um levantamento de como a figura da pombagira é representada na produção ficcional e midiática brasileira e tentaremos interpretar as condições da transformação da figura da pombagira, desde sua função como entidade sagrada até sua função dessacralizada de prostituta ou ‘companheira das prostitutas’.

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